2. ENTREVISTA 21.8.13

SRGIO CABRAL -  DEIXO O GOVERNO ENTRE JANEIRO E ABRIL DE 2014"

O governador diz que passar o comando do Estado para o vice, afirma que o vandalismo tomou conta das manifestaes e assegura que as UPPs nunca estiveram to fortes
por Eliane Lobato 

PMDB NA CABEA - O governador do Rio, Srgio Cabral, diz que no aceita palanque duplo no Rio, a no ser que Lindbergh Farias (PT) concorde em ser vice de Pezo

Um dia depois de ter visto o Palcio Guanabara, sede do governo estadual do Rio de Janeiro, cercado por manifestantes que tentavam ocupar o local, o governador Srgio Cabral (PMDB) recebeu a reportagem de ISTO. Dizendo-se muito preocupado com o vandalismo que tomou conta dos protestos, Cabral enxerga por trs dos sucessivos atos contra ele segmentos polticos interessados em minar a aliana celebrada entre o governo do Estado, a presidenta Dilma Rousseff (PT) e o prefeito carioca, Eduardo Paes (PMDB). Para brigar pelo triunfo dessa parceria (PMDB-PT), Cabral revela que deixar o governo entre janeiro e abril de 2014. Com isso, o vice-governador Luiz Fernando de Souza, o Pezo, candidato  sua sucesso, assumir o governo.  importante que Pezo tenha tempo de conhecer e conquistar o eleitor fluminense. Acho que essa aliana fez muito bem ao Brasil e eu vou lutar por ela no plano estadual e federal, disse o governador. Com 51 anos completados em janeiro, Cabral afirmou que, ao deixar o Palcio Guanabara, passar a ser apenas um militante. De Pezo e de Dilma.

"A dupla  essa: Pezo, o pai do PAC, e Dilma, a me do PAC. O Lula disse isso uma vez na Rocinha, e est dito"

"Estou preocupado com o acuamento das instituies. Coquetel molotov e rojes no fazem parte da democracia"

Isto - O sr. disse que poderia haver adversrios polticos por trs das manifestaes. Tem alguma prova?

Srgio Cabral - Na verdade, eu quis dizer que houve manifestaes em todo o Brasil de jovens desejosos de participar, intervir no processo poltico, exercer cidadania de maneira muito saudvel. Aps esse momento, em diversas cidades do Pas, comearam as aes de menor dimenso vocacionadas por grupos que no so ligados a partidos, mas que tm premissas de combate ao poder pblico e de constrangimento  mdia. So grupos que tm o princpio de coao ao regime democrtico, no meu entender. E h outros grupos que so ligados a partidos e lideranas polticas desejosos de antecipar o processo eleitoral. Esse  o processo atual que nada tem a ver com aquele momento, que comeou em junho, em que todo o Brasil se manifestou.

Isto - O que diferencia os dois protestos, os de junho e os de agora? 

Srgio Cabral - O tipo de manifestao atual me impressiona muito. Estou muito preocupado como brasileiro, no  nem como governador, com esse processo de acuamento das instituies com instrumentos que no devem fazer parte do processo democrtico, como coquetel molotov, rojes, pedras. Isso eu nunca vi em manifestao. Nunca vi mascarado chegando, como chegaram na segunda-feira 12, no Palcio Guanabara, soltando rojes, jogando coquetel molotov nos policiais. Muitos vndalos quebrando agncias bancrias. Isso no  ambiente para Pas democrtico.

Isto - Acha que a aliana com a presidenta Dilma Rousseff pode ser afetada?

Srgio Cabral - H, sem dvida, no jogo poltico, foras polticas incomodadas com essa aliana que tem tido muito xito nas polticas pblicas e, como consequncia, obtido vitrias eleitorais. Isso h. Em 2006 ganhamos o governo do Estado. Em 2008, nosso candidato a prefeito ganhou na capital (Eduardo Paes-PMDB). Em 2010 eu me reelegi no primeiro turno com 67% dos votos e, em 2012, o prefeito Paes se reelegeu com 65% dos votos, entre outras vitrias. H setores e segmentos incomodados com as alianas. E, s vezes, at mesmo dentro dos nossos partidos h quem no esteja trabalhando como deveria para que essa aliana permanea. Isso faz parte do jogo poltico. A gente tem que ter a sensibilidade para perceber isso.

Isto -  o momento mais difcil pelo qual o sr. passou?

Srgio Cabral - J tive outros difceis nesses quase 7 anos de governo. Houve um momento terrvel em 2008 quando, em seu ltimo ano como prefeito, Cesar Maia (DEM) lavou as mos com o assunto da dengue e eu comecei a ver as pessoas morrendo. Falei: no vou ficar aqui discutindo se o mosquito  municipal, federal ou estadual. Fui para as ruas com a equipe de sade assumindo tarefas que, teoricamente, seriam da prefeitura. Fizemos tendas de hidratao e comprei briga com mdicos. Aquilo me exps muito e os meus ndices foram l para baixo. Agora, no sou s eu, o Brasil todo viveu imagens conflitantes; a imagem institucional  que foi questionada. 

Isto - O sr. fica at o fim do mandato?

Srgio Cabral -  a primeira vez que falo isso: estou seriamente inclinado a permitir que a populao conhea o meu vice Pezo com tempo suficiente para conviver com ele como governador. Ento, da mesma maneira que vrios governadores deixaram o cargo para o vice disputar a eleio, eu estou pensando em fazer o mesmo. O Pezo  homem pblico de uma seriedade, eficincia, simplicidade e capacidade extraordinria.  um sujeito que veio do cho da fbrica, foi vereador e prefeito. Ele  o nome para dar continuidade  obra poltica.  a maior segurana que este Estado tem para continuar no caminho certo.

Isto - Quando o sr. pretende sair do governo, ento?

Srgio Cabral - O prazo mximo  abril, porque as convenes so em junho, e no quero ficar muito perto do processo eleitoral. Quero que ele tenha tempo de amadurecer a relao dele com a populao. Mas pode ser antes, pode ser em janeiro, estou estudando. Deixo o governo entre janeiro e abril de 2014.

Isto - E o seu futuro?

Srgio Cabral - Olha, vou responder com um trecho da msica do Zeca Pagodinho: deixa a vida me levar. Vou me tornar um militante e lutar pela aliana entre o PT e o PMDB. Acho que essa aliana fez muito bem ao Brasil e eu vou lutar por ela no plano estadual e federal. Fora do governo fico mais liberado, mais  vontade para trabalhar essa aliana, que acho muito importante. Ela viabilizou conquistas para o Estado e para o Brasil. Acho que  meu dever conseguir amalgamar os trs nveis de poder. No significa que eu, Eduardo (Paes) e Dilma no tenhamos divergncias, temos sim, mas temos uma agenda em comum e qualquer coisa que comprometa esse rumo  ruim.

Isto - O sr. continua sendo contra a possibilidade de Dilma ter dois palanques no Rio de Janeiro?

Srgio Cabral - Eu sou muito claro em relao a esse tema. Temos uma histria de quase sete anos de parcerias, conquistas, solidariedade mtua. Isso no pode ser interrompido.

Isto - 
Uma aliana entre os dois candidatos Lindbergh Farias e Pezo  vivel?

Srgio Cabral - Estamos de braos abertos para o PT continuar conosco nesse processo de aliana. Mas acho que temos a legitimidade, o direito de lanar o candidato a governador. Numa aliana  preciso olhar o todo, o processo geral. De corao aberto, quero discutir com os companheiros a manuteno dessa aliana.

Isto - A presidenta Dilma tem manifestado apoio?

Srgio Cabral - Muito. A presidenta  nossa companheira. No s ela, mas tambm seus ministros. Hoje falei longamente com a ministra Miriam Belchior sobre a Linha 3 do metr que estamos na eminncia de conquistar os recursos. Porque  uma obra importante que liga Niteri/So Gonalo e Itabora. Minha relao com os ministros do governo  muito respeitosa, carinhosa. E a presidenta  uma amiga. Ela sempre disse: Serginho, voc no  meu companheiro,  amigo. E ela tem razo. Trocamos confidncias. Ela me d boas dicas de filmes e livros. E temos uma coisa em comum: somos liderados por Luiz Incio Lula da Silva. A dupla  essa: Pezo, o pai do PAC, e Dilma, a me do PAC. O Lula disse isso uma vez na Rocinha, e est dito.  isso. Ser que essa construo de aliana, essa solidariedade recproca, merece ter dois palanques no Rio?

Isto - Muda algo nas UPPs?

Srgio Cabral - Nunca esteve to forte como est hoje. A gente tem que lembrar que antes das UPPs sumiam pessoas semanalmente na Rocinha. Quando essas comunidades eram controladas pelo poder paralelo, trfico e milcia, o micro-ondas queimava pessoas. O Tim Lopes foi vtima disso. Claro, h interesses na desmoralizao das UPPs por parte de marginais que querem enfraquec-las. Sobre a resoluo 013 da segurana, que pe na mo do comandante da UPP a deciso se pode ter bailes funks ou no, acho que est errado. Vou ligar para o Beltrame (o secretrio de Segurana Pblica do Estado do Rio de Janeiro, Jos Mariano Beltrame) porque est errado. Na poca que fizemos isso era outra fase. Hoje no precisa mais. No  mais a Secretaria de Segurana, vai voltar a ser a prefeitura. A primeira UPP vai completar cinco anos em dezembro. A da Rocinha, dois anos em dezembro. A do Alemo, trs anos em novembro. Depois de 40 anos de controle paralelo, barra pesadssima. A resoluo 013  a segurana regulamentando eventos. Vamos devolver  prefeitura a responsabilidade de organizao de eventos, alm de outros rgos legais, como bombeiros.

Isto - E o caso Amarildo, como fica? 

Srgio Cabral - Est nas mos da Delegacia de Homicdios. Confio no delegado Vivaldo Barbosa.  um caso que ningum mais do que eu e o Beltrame queremos que seja elucidado, e tenho certeza que ser. Tem uma linha de investigao que aponta para responsabilidade de PMS e outra linha que aponta para o trfico. Como qualquer outra investigao, est sendo apurada. Importante  que ningum vai passar a mo na cabea de ningum, no tem proteo a ningum.

